Faces in the Dark

Está na hora de dormir, Lexis…

Mas, mamãe..!

Não, querida, sem enrolação, querida. Boa noite.

Boa noite, mamãe…

A luz do quarto foi apagada, a pequena garota se enrola nos edredons e fecha os olhos, apertando o travesseiro delicadamente contra o rosto por alguns segundos antes de cair em um sono profundo.

O mundo agora era apenas escuridão. Um breu completo e solitário.

A pequena não sentiu quando a cama ficou ligeiramente mais pesada ao seu lado, como se alguém tivesse se sentado ali.

Mexeu-se confortavelmente embaixo de sua proteção contra o frio e permitiu-se ser levada para o Sonhar.

Deixe, Lexis em paz.

Não. Hoje ela é minha.

A garota se mexe, resmungando enquanto chuta o edredom de perto de si, uma perna pendurada para fora da cama.

Vê? Ela me quer.

Um choro leve escapa os lábios da criança, ela volta a se embolar nos lençóis, apertando a mãozinha do seu bichinho de pelúcia.

Vá embora! Ninguém o quer!

Algo assusta a criança, ela escuta um barulho, como um animal guinchando e se levanta na cama, assustada e gritando.

Lexis!? Está tudo bem! Mamãe está aqui, querida.

Não há nada ao seu lado, nada na cama. Apenas seus lençóis, agora molhados com suas lágrimas.

Foi apenas um sonho ruim, querida… Venha, vamos dormir juntas, está bem?

E enquanto a garota sai ainda soluçando com sua mãe, o pequeno braço de pelúcia permanece inerte ao lado da cama, o estofado espalhado pela mesa de cabeceira.

Faces in the darkness

 

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Oração ao Tempo

I think I’ll figure it out with a little more time
Turn off the lights – Panic! at the Disco

clock

A noite seguia seu curso, seus amigos já bebiam, dançavam e se divertiam como se não houvesse amanhã, mas não se sentia no mesmo clima que eles. Aproveitando uma brecha enquanto Naruto cantava no karaokê, abriu a porta de vidro e saiu para a sacada.

O cenário era de tirar o fôlego. A primeira neve do dia caíra a pouco e deixou a cidade salpicada de branco, brilhando sob as luzes. Era possível enxergar a felicidade que rondava as pessoas de longe, todos ansiando pelo novo ano que se aproximava.

E se sentiu sozinha.

O vento frio a envolveu e deixou que seus sentidos despertassem do torpor da bebida, afastando-a do calor que emanava da casa, dos seus amigos. Deixando que seus pensamentos lentamente se voltassem para o relógio.

Vários anos se passaram, várias situações inusitadas e tristes, mas não deixou de ter esperança, de ter fé de que tudo daria certo. Só que sentia medo.

Sentia tanto medo.

Não percebeu quando começou a sentir o aperto em seu peito, quando não conseguia mais respirar. Mal sentiu o frio quando segurou o parapeito, escorregando para o chão enregelado. Achava que ia morrer ali, sozinha, sem nunca encontrar seu par.

Como poderia fazer isso? Como poderia continuar a respirar?

– Olhe para mim, Hinata.

A voz grave chamou sua atenção, tentou focar em quem a chamava, mas não conseguia enxergar através das lágrimas.

– Vamos, Hinata, preste atenção na minha voz. – sentiu o toque cálido em seu pescoço – Conte comigo até dez.

A respiração ardia em seu peito, o olhar desfocado. Precisou de alguns instantes para entender o que era pedido. Não conseguiu encontrar a voz para dizer nada.

– Em voz alta, vamos.

Juntou todo o restante de força que tinha, sugou o ar tentando encontrar fôlego e sussurrou – Um…

Sentiu dor ao respirar, mas a mão quente permaneceu em seu pescoço. Sentiu outro toque em sua testa e logo depois ser apoiada no ombro.

– Continue, Hinata.

Fechou os olhos com força e se concentrou na contagem, concentrou-se na voz e no calor do toque que a envolvia – Dois…

A respiração já não queimava tanto, recebeu apoio para ficar novamente de pé e recostada contra o parapeito gelado – Três…

Deixou de se preocupar com o que acontecia ao seu redor, com o que inundava seus pensamentos – Quatro.

Sentiu quando a mão quente deixou seu pescoço e segurou suas mãos frias – Cinco.

Conseguia escutar a música que continuava a tocar e seus amigos cantando no karaokê – Seis.

Ficou aliviada por saber que não estragou a festa de ninguém – Sete.

Piscou os olhos e percebeu que já não havia lágrimas – Oito.

Encarou os olhos negros de Sasuke à sua frente – Nove.

Respirou fundo uma última vez – Dez.

Secou o rosto, deu um pequeno passo para trás e suspirou, enquanto encarava o amigo. Notou um leve sorriso de canto nos lábios dele.

– Obrigada, Sasuke.

Ele deu de ombros e se espreguiçou, escorando-se no parapeito e encarando a vista – Não por isso, Hinata.

O silêncio os envolveu confortavelmente e permaneceram assim, cada qual perdido em seus pensamentos. Perguntava-se o que teria feito Sasuke sair do meio da festa.

– Sabe… – assustou-se quando ele quebrou o silêncio – Nem tudo são flores.

O encarou sem entender.

– Ninguém realmente fala sobre isso, então a gente acaba achando que nunca mais teremos problemas depois que o relógio zera – ele continuou como se não esperasse resposta e sentiu seu peito se apertar novamente – Só que a realidade não é bem essa.

Como se esperasse exatamente essa frase, Naruto se espreme na porta de vidro, o olhar marejado e começa a se lamentar – Sasukeeee… O Kiba não me deixa cantar mais…

Não pôde deixar de rir enquanto via o olhar quase assassino que Sasuke lançava ao namorado e entendeu exatamente o que ele quis dizer.

– Sasuke… – ele voltou-se para ela – Obrigada por me ajudar. – sorriu, incapaz de dizer o quanto o amigo a ajudou.

– Não perca tempo preocupada com o amanhã, Hinata – ele sorriu de canto novamente enquanto recebia um abraço choroso do namorado – Eu te garanto que no final, tudo vai se encaminhar.

Enquanto voltava a ficar sozinha na sacada fria, levou a mão ao coração sentindo-o bater lentamente, a respiração vinha facilmente e sorriu. Não havia com o que se preocupar. Estava, afinal, cada dia mais próxima de encontrar aquele que seria seu par.

O céu se encheu de cores com os fogos de artifício que lhe roubaram o fôlego.


Naruto e seus personagens não me pertencem, a imagem foi encontrada na internet e a letra da música, obviamente, pertence à Panic! at the Disco.

Esta é uma fanfic que estou escrevendo para uma amiga minha e que está sendo postada no Nyah! e no fanfiction.net, considerando-se que este é o terceiro capítulo da história, não espero que entendam, realmente.

É uma fanfic Gaara e Hinata, e o tema é timer soul mate, e consiste na ideia de que em um futuro distante/outra realidade, as pessoas nascem com um relógio em seu pulso que zera quando encontra a sua alma gêmea. É uma ideia batida já, que já foi usada em filmes e diversas histórias espalhadas pelo Tumblr. Essa é só a minha visão sobre o assunto e com personagens de Naruto. Há diversos casais que eu shippo na minha história e há, também, muito drama e vontade de matar a autora no caso, eu e coisas afins.

Beijos da tia Tifa que não saiu da aposentadoria, mas de vez em nunca posta alguma fanfic.

Pontos

eye

Alguns de seus amigos já perguntaram o que havia de tão interessante passar dia após dia sentado em uma mesa do café, observando a rua. Com certeza existiam lugares melhores para escrever.

Nunca conseguiu exatamente explicar o que o motivava. Só… precisava estar lá, sentia que ali era o melhor lugar para conseguir o que precisava para suas histórias abrirem as asas e voarem para longe, já sem precisar dele.

Chegou assim que o café se abriu, como de costume, o atendente sorriu ao vê-lo e preparou seu pedido – café preto, forte e sem açúcar. Sentou-se na mesa de sempre, abriu seu caderno – outra coisa que seus amigos costumavam apontar como loucura – e deixou que o aroma do café se misturasse às distantes buzinas e trovoadas.

Não havia lugar como nosso lar.

Sorriu ao tomar sua bebida quente, deixando sua imaginação percorrer as ruas, lado a lado com os apressados pedestres, motoristas estressados com o trânsito da manhã e crianças que corriam alegres à procura de abrigo, pulando de poça em poça.

Não precisava de muito para dar vazão ao que tinha em sua mente, não precisava se esconder em uma cabana na floresta, em uma casa afastada no litoral ou em um hotel nos alpes. Não era nesses lugares que se sentia à vontade.

Pegou sua caneta e deixou que as palavras surgissem no papel, tomando seu café, escutando o suave tamborilar da chuva na vidraça. Nada mais do que visões diferentes, realidades discrepantes. Pontos de vista que se alteram, se moldam, tornam-se algo completamente novo.

Graças a algo tão banal quanto tomar um café em um dia de chuva.

Areias do Tempo

patience

Sentou-se na varanda, os pés descalços balançando livremente pelo guarda-corpo. Suas mãos envolviam uma xícara de chá quente enquanto sua respiração transformava-se em névoa em cada expiração.

Havia uma beleza que não conseguia realmente descrever enquanto observava cada lâmpada se apagando na cidade em que morava. Era como ver o desvanecer de uma estrela. Sentia-se estranhamente livre e diminuta a cada nova luz que se apagava.

Era sua hora favorita na noite. O toque de recolher, o apagão mandatório.

A escuridão nunca a incomodara realmente, ou a solidão. Bastava acompanhar o apagar de cada setor, mergulhar na escuridão humana, deixar-se inundar pelo sentimento de impotência e pequenez.

Inspirar e expirar.

E quando a escuridão era total, fechava os olhos com força, com calma, em paz.

Inspirar e expirar.

Bebericava o delicioso chá que aquecia suas mãos enregeladas, sentindo-se aquecer por dentro, uma mistura de paz líquida e calmaria que invadia sua alma. Como se houvesse ingerido as luzes que acompanhara se apagando.

Inspirar e expirar.

Abrir os olhos lentamente, encontrando a noite sendo iluminada por aqueles corpos celestes imutáveis e sempre em movimento.

Inspirar.

Acompanhar a rotação dos planetas, encontrar aquelas constelações favoritas – suas e apenas suas – e perder-se na imensidão das estrelas que a humanidade já abandonara.

Expirar.

E encontrar-se exatamente onde deveria estar.

Felinos

Cat

A noite acabara em grande estilo, como costumava acabar aos fins de semana. Ofegava enquanto respirava fundo e tentava acalmar o coração que batia descompassado. Encarou seu companheiro que já dormia, ressoando levemente e se levantou da cama.

O ar frio do quarto tocou seu corpo nu e sorriu ao se espreguiçar, sentindo os músculos relaxando, a pele arrepiada enquanto caminhava pelo quarto escuro.

Imaginou quanto tempo ele dormiria desta vez ou se perceberia que não estava ao lado dele, mas logo que chegou à sacada e acendeu seu cigarro, deixou que sua mente vagasse enquanto observava as poucas estrelas que conseguiam vencer as luzes da cidade e brilhavam fortes, como para mostrar que podiam. Que nada poderia apagar o seu brilho.

O cigarro veio e se acabou, espreguiçou-se e voltou para o quarto, sorrindo levemente com a imagem dele esparramado por cada milímetro da cama, ressoando tranquilamente.

Com um delicado empurrar, conseguiu o seu espaço, deitando-se ao lado dele e permitindo que ele tivesse sua liberdade. Sabia que ele não gostava de aconchegar-se a ela após o sexo e, honestamente, não se importava. Já se dava por satisfeita por ele ter dormido ali.

Antes, porém, que caísse nas graças de Morfeu, sentiu quando ele a abraçou e a aconchegou entre seus braços, afagando seu pescoço. Em momento algum ele abriu os olhos ou mudou seu padrão respiratório. Apenas dormia.

Sorriu, sentindo enquanto o ar vibrava nos pulmões dele a cada respiração e aninhou-se a ele, escutando seu ressoar, tão parecido com o ronronar de um gato e deixou-se acalentar por esse som, dormindo com paz de espírito.

Inked

Respirou fundo.

Ainda não acreditava que estava fazendo isso. Sentia o coração batendo descompassado no peito e as mãos tremiam. Quanto mais pensava, mais acreditava estar louca, ensandecida.

Exalou profundamente.

Mal havia percebido que prendera o ar. Afinal, o que fazia ali? Não era uma pessoa assim, impulsiva, que decidia as coisas no decorrer de uma batida de coração. Não. Sempre calculava tudo o que queria acontecer para que nada saísse do seu controle.

Não que fosse uma pessoa excessivamente controladora, só… Gostava de ter controle sobre suas escolhas. Não gostava de ser surpreendida e enchia o peito com orgulho ao dizer que nunca se arrependera de nenhuma escolha em sua vida. Ao que muitos de seus amigos riam-se com os olhos cheios de algo que se assemelhava à pena e diziam que ela nunca realmente vivera.

E se se arrependesse dessa escolha? Poderia culpar sua crise de impulsividade?

– Já se decidiu?

Abriu os olhos e se deparou com olhos castanhos pacientes. Assustou-se com o carinho que viu estampado naquele olhar. Com um dedo trêmulo indicou um desenho. Ele deu um meio sorriso e apontou a maca.

Sem ao menos dirigir a palavra a ele, despiu a blusa e deitou de lado. Arrepiou-se com o toque gelado do álcool e o calor que parecia emanar da mão dele.

– Diga se estiver doendo.

Fechou os olhos com força, as unhas machucando as palmas de suas mãos. Milhares de pensamentos cruzando sua mente e não conseguiu assentir ao que ele disse. Mal o havia escutado, morrendo de medo de tudo.

Quando a agulha perfurou sua pele pela primeira vez sentiu-se relaxar. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ouviu o tatuador perguntar.

– Está tudo bem?

E sentiu ali, naquele momento, que estava exatamente onde deveria estar. Não se arrependeria do que era, do que aquela tinta significava.

– Não poderia estar melhor.

Tatuagem