Areias do Tempo

patience

Sentou-se na varanda, os pés descalços balançando livremente pelo guarda-corpo. Suas mãos envolviam uma xícara de chá quente enquanto sua respiração transformava-se em névoa em cada expiração.

Havia uma beleza que não conseguia realmente descrever enquanto observava cada lâmpada se apagando na cidade em que morava. Era como ver o desvanecer de uma estrela. Sentia-se estranhamente livre e diminuta a cada nova luz que se apagava.

Era sua hora favorita na noite. O toque de recolher, o apagão mandatório.

A escuridão nunca a incomodara realmente, ou a solidão. Bastava acompanhar o apagar de cada setor, mergulhar na escuridão humana, deixar-se inundar pelo sentimento de impotência e pequenez.

Inspirar e expirar.

E quando a escuridão era total, fechava os olhos com força, com calma, em paz.

Inspirar e expirar.

Bebericava o delicioso chá que aquecia suas mãos enregeladas, sentindo-se aquecer por dentro, uma mistura de paz líquida e calmaria que invadia sua alma. Como se houvesse ingerido as luzes que acompanhara se apagando.

Inspirar e expirar.

Abrir os olhos lentamente, encontrando a noite sendo iluminada por aqueles corpos celestes imutáveis e sempre em movimento.

Inspirar.

Acompanhar a rotação dos planetas, encontrar aquelas constelações favoritas – suas e apenas suas – e perder-se na imensidão das estrelas que a humanidade já abandonara.

Expirar.

E encontrar-se exatamente onde deveria estar.

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